“A máquina ajuda, mas quem acolhe é o humano” afirma presidente da Associação Médica sobre novo cenário da medicina

Entrevista – Anna Beatriz Dutra Valente Costa

Em um cenário em que a inteligência artificial, a telemedicina e o avanço das tecnologias transformam rapidamente a prática médica, surge um desafio cada vez mais evidente: como incorporar a inovação sem perder aquilo que é essencial na relação entre médico e paciente? Esse é o eixo central da 36ª Jornada Médica de João Monlevade, que começou ontem (21) e segue até amanhã (23), reunindo profissionais para discutir o tema “Entre dados, decisões e afetos: o novo paradigma da Medicina”.

Confira a entrevista com a presidente da Associação Médica de João Monlevade, Anna Beatriz Dutra Valente Costa, sobre o evento:

Qual é o principal objetivo da Jornada Médica deste ano e o que motivou a escolha do tema “Entre dados, decisões e afetos: o novo paradigma da Medicina”?

A Jornada Médica acontece há 36 anos e tem como principal objetivo o aprendizado e a renovação científica. Também buscamos integrar médicos e outros profissionais da saúde. Hoje a inteligência artificial está inserida em todos os espaços da sociedade e a medicina não pode ficar distante dessa realidade. A telemedicina, por exemplo, ampliou possibilidades e aproximou médicos e pacientes. O nosso objetivo é discutir como utilizar esses avanços sem perder a essência do cuidado.

Como equilibrar o avanço tecnológico e a inteligência artificial sem perder o lado humano da medicina?

O médico precisa estar inserido nesse novo contexto tecnológico, mas sem esquecer que a tecnologia não define o ato médico. Quem define é o profissional. O computador pode fornecer dados, auxiliar nas decisões, mas o acolhimento, a escuta e a responsabilidade continuam sendo humanos. O paciente não procura uma máquina; procura alguém que consiga interpretar informações e, ao mesmo tempo, compreender suas necessidades.

O relacionamento entre médico e paciente mudou nos últimos anos?

Mudou, assim como mudaram todas as relações humanas. A tecnologia trouxe novos hábitos e transformou a forma como nos relacionamos. Ela ajuda muito, mas também pode criar distanciamentos.

Em um cenário cada vez mais tecnológico, qual passa a ser o diferencial do médico?

O diferencial é justamente o acolhimento e a humanidade. A máquina não acolhe ninguém. O profissional que perder essa capacidade de olhar o outro como ser humano estará perdendo sua principal essência.

Quais temas estarão em destaque nesta edição?

Vamos abordar temas diversos, como triagem oncológica, imunobiológicos para doenças autoimunes e câncer, avaliação da marcha em crianças, uso de corticoides e grupos de estudos. Também teremos um tema de grande relevância social: feminicídio. A delegada Camila Batista Alves trará dados regionais e promoverá essa discussão conosco.

Como a Jornada contribui para a atualização científica dos profissionais?

O foco é a troca de experiências. Teremos médicos da cidade, especialistas convidados de Belo Horizonte e profissionais de diferentes áreas discutindo avanços e experiências práticas.

Qual o papel da empatia e da escuta nesse novo paradigma da medicina?

A empatia é essencial. O médico não pode olhar apenas para sintomas ou dados; precisa enxergar o paciente como um ser humano completo, com história, dores e sentimentos. A escuta médica continua sendo um grande diferencial.

A formação dos futuros médicos precisa mudar?

Sim. A medicina acompanha mudanças da sociedade. O volume de informações hoje é muito maior e isso exige adaptações na formação. Precisamos ampliar residências médicas e fortalecer a prática, porque a medicina não pode ser aprendida apenas nos livros.

O que diferencia esta edição das anteriores?

Temos discutido cada vez mais o impacto da tecnologia na medicina e como utilizá-la a favor do humano. Também vamos abordar espiritualidade e medicina, reforçando a importância das relações humanas.

Quais debates devem sair fortalecidos após a Jornada?

Esperamos fortalecer a importância da escuta, da empatia e também da integração entre gerações. Os profissionais mais experientes compartilham vivências e os mais jovens trazem novas perspectivas e tecnologia. Essa troca fortalece a medicina.

Como eventos como esse impactam diretamente a população?

Quanto mais atualizado e preparado o médico estiver, melhor será o atendimento. Isso beneficia toda a sociedade. João Monlevade possui uma medicina de qualidade e iniciativas como essa ajudam a fortalecer ainda mais esse trabalho.

Fonte: A Notícia