Covid-19: Entenda a restrição emergencial no uso de testes PCR em Minas

Com insumos em falta, Estado limita aplicação do exame “padrão ouro” e busca testes rápidos como alternativa

Enquanto os novos casos de Covid-19 aumentam e as vagas nos hospitais diminuem, Minas Gerais enfrenta outro gargalo no combate à pandemia. Por falta de insumos e diminuição da capacidade operacional, o governo do Estado determinou uma redução emergencial na utilização de testes do tipo RT-PCR, ideal para o diagnóstico preciso dos pacientes infectados. A alternativa, por ora, é tentar a compra de mais testes rápidos.

Em nota técnica enviada às prefeituras no fim de dezembro, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) alterou os critérios de aplicação do exame “padrão ouro”, com o objetivo de racionar o uso dos materiais e da estrutura até que a situação seja normalizada.

“Desde maio de 2020, a SES tem conduzido diversos processos de aquisição de insumos. Entretanto, devido ao cenário de disputa mundial, não possui em estoque todos os consumíveis necessários”, comunicou a secretaria. Em esclarecimento enviado à reportagem, a pasta informou estarem em falta produtos essenciais para o manuseio de amostras e reagentes, tais como tubos e ponteiras.

Além disso, algumas instituições deixaram de colaborar com a testagem, entre elas a Fundação Hemominas e os laboratórios da Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros) e da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro).

“A ampliação da rede [em 2020] incluiu instituições públicas que detêm a tecnologia para a realização de RT-PCR e atuam em apoio ao Estado, mas, em decorrência da retomada de outras atividades, alguns laboratórios tiveram a suspensão do fluxo recentemente. Outros tiveram o fluxo redirecionado temporariamente em decorrência do recesso de final de ano ou da indisponibilidade de insumos”, diz a nota técnica.

O desabastecimento e a redução da capacidade coincidem com o novo auge da pandemia no Estado e podem provocar aumento na subnotificação. Dezessete dos 20 dias com mais casos confirmados ocorreram de dezembro para cá, incluindo o novo recorde (7.715), registrado nesta quarta-feira (6). O número de pessoas contaminadas cresceu 34% apenas nesse período.

A pressão da demanda já resulta em atrasos no processamento das amostras pelo Laboratório Central de Saúde Pública de Minas Gerais (Lacen), inclusive com o descumprimento do prazo de 72h para a divulgação dos resultados, como revela a própria nota técnica da SES.

 

Medida paliativa

A previsão é que os fornecedores do Estado realizem as próximas entregas somente a partir da segunda quinzena de janeiro. Mas a situação ainda pode demorar a ser normalizada, pois a concorrência pelos itens tem dificultado a aquisição, mesmo após a realização de um pregão eletrônico.

Como alternativa emergencial, a SES já iniciou um novo processo para a compra de mais 330 mil testes rápidos de antígeno, menos eficazes na comparação com o PCR, porém mais adequados do que os testes sorológicos para o diagnóstico de casos ativos. O novo pregão ainda encontra-se em fase de análise jurídica, portanto não há uma previsão concreta de publicação do edital ou chegada desses kits.

“A testagem de antígeno tem pontos fracos e fortes, mas de forma alguma substitui o PCR. O ideal é que ela fosse realizada de forma complementar, especialmente numa estratégia de triagem e rastreio de contatos”, pondera o infectologista Adelino Melo, diretor científico do Hospital Felício Rocho e do laboratório de biologia molecular Target. Um dos principais problemas, segundo ele, é a baixa sensibilidade em pacientes com uma menor carga viral.

Por outro lado, o teste de antígeno é mais barato e mais rápido, tornando-se a melhor opção neste cenário, na opinião do infectologista Unaí Tupinambás, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte.

“É claro que não é o ideal, mas diante dos problemas conjunturais, pode ser a saída mais interessante. Se por um lado perde na sensibilidade, por outro, ganha na agilidade. Se o paciente tiver uma forte suspeita e o teste der negativo, podemos repetir o exame rapidamente”, explica. Ele afirma ainda que o teste de antígeno vem sendo estudado e seu desempenho tem melhorado nos últimos meses, de acordo com publicações científicas.

 

O que mudou

A nova recomendação da SES impõe uma restrição “em caráter emergencial e temporário” no perfil de quem deve ser submetido aos testes do tipo RT-PCR na rede pública.

Desde o fim de dezembro, o diagnóstico “padrão ouro” está limitado aos casos suspeitos hospitalizados e óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), além de profissionais da saúde ou da segurança pública e outros grupos restritos como gestantes, idosos, indígenas, quilombolas e presos.

Antes, desde outubro, a orientação oficial determinava que essa testagem contemplasse “todo indivíduo que se enquadre na definição de caso suspeito de síndrome gripal causada pelo SarsCoV-2 (Covid-19)”.

À reportagem, a secretaria enfatizou que “a restrição dos critérios não comprometeu a oferta de exames para pacientes graves e correspondente a grupos populacionais mais expostos ou de risco para a doença” e que a medida será reavaliada dentro de um mês.

 

Rede particular

De acordo com Melo, a dificuldade na obtenção de materiais para os testes PCR é um problema antigo e ameaça também alguns laboratórios da rede privada. “Passamos por uma relativa calmaria antes de dezembro, mas a iminência da falta é quase diária. Desde o início da pandemia, a busca por insumos é uma disputa muito grande no mercado”, afirma o diretor da Target.

A reportagem procurou outros laboratórios particulares do Estado nesta quarta-feira (6), mas só conseguiu um retorno da rede Hermes Pardini até esta publicação. Segundo a assessoria da empresa, ainda não houve registros de falta de insumos para o exame de RT-PCR em suas unidades e “não existe qualquer indício, no momento, de que possam vir a faltar nos próximos dias”.

O TEMPO