“Vacinação é um gesto de cuidado com a vida”, afirma médico Tales Fagundes

Nesta semana, o Ministério da Saúde anunciou a suspensão temporária da vacinação contra a dengue com o imunizante do Instituto Butantan. A medida é adotada por precaução enquanto são investigados 42 casos raros com sinais de alerta não observados nos estudos clínicos. O episódio reacendeu dúvidas e debates entre a população sobre a segurança e a importância das vacinas. Em meio ao período de aumento das doenças respiratórias e à continuidade da circulação do vírus da dengue, o médico Tales Alvarenga Fagundes respondeu perguntas do A Notícia e esclareceu os principais questionamentos sobre vacinação, prevenção e proteção coletiva. Confira:

Qual é a importância da vacina contra a dengue no combate à doença e como ela se soma às demais estratégias de prevenção?

A vacina amplia a proteção das pessoas contra as formas sintomáticas e graves da doença que levam à internação hospitalar. No Brasil, onde o vírus tem grande circulação, a importância de diminuir a chance de manifestar a doença é ainda maior, pois não se consegue eliminar completamente a presença do vírus e do seu vetor, o mosquito.

Recentemente surgiram notícias sobre investigações envolvendo eventos adversos relacionados à vacina contra a dengue. Como a população deve interpretar essas informações sem perder a confiança na vacinação?

Segundo o Ministério da Saúde, a suspensão da vacina contra a dengue do Instituto Butantan ocorreu em razão de reações adversas de alerta registradas em 42 pessoas no período pós-vacinal, sendo três casos graves, dois deles evoluindo para óbito e que ainda estão em investigação.

Foram aplicadas mais de 500 mil doses, e é necessário aguardar as conclusões dos estudos para estabelecer ou não uma relação de causalidade. Existe um período de vigilância após o início da utilização de um medicamento ou, nesse caso, de uma vacina, em que são relatados os eventos adversos observados. Isso acontece com todos os medicamentos, seguindo princípios éticos e de proteção da população.

Casos recentes ocorreram com os agonistas de GLP-1, os chamados medicamentos para emagrecimento. Houve questionamentos, os dados foram revisados e demonstrou-se que os benefícios superavam amplamente os riscos, o que explica sua ampla utilização atualmente.

Quem pode receber a vacina contra a dengue atualmente e quais são os principais critérios observados pelas autoridades de saúde para sua aplicação?

Atualmente, existem duas vacinas contra a dengue. A Qdenga, disponível na rede privada, é indicada para pessoas de 4 a 60 anos. Já a Butantan-DV, indicada para a faixa etária de 12 a 59 anos, encontra-se temporariamente suspensa para investigação. Para a aprovação e recomendação de uma vacina, as autoridades de saúde consideram principalmente sua capacidade de prevenir casos graves, hospitalizações e óbitos por dengue, além de um perfil de segurança comprovado em estudos que acompanham milhares de pessoas ao longo de vários anos.

Muitas pessoas acreditam que, por já terem tido dengue, não precisam se vacinar. Essa percepção está correta?

Não. Pessoas que já tiveram dengue devem considerar a vacinação, pois a infecção confere imunidade duradoura apenas para o subtipo de vírus que causou a infecção. Como existem pelo menos quatro sorotipos de vírus que causam a dengue, a pessoa continua desprotegida contra os demais.

Mesmo com a chegada das vacinas, o combate aos criadouros do mosquito continua sendo necessário. Qual é o papel da população nesse enfrentamento?

A população deve buscar reduzir a presença do mosquito vetor no ambiente. As medidas que diminuem sua multiplicação serão mais eficazes se todos eliminarem os locais onde pode ocorrer acúmulo de água parada, muitas vezes em áreas particulares que não são visíveis para todos. Essas ações, que incluem a limpeza urbana e dos domicílios, ajudam a reduzir a transmissão não apenas da dengue, mas também de outras doenças, como zika, chikungunya e leptospirose.

Neste período do ano também ocorre uma intensificação das campanhas contra a gripe. Por que a vacinação contra a influenza é tão importante durante os meses mais frios?

Porque esse é o período de maior atividade do vírus da gripe. O frio e o ar seco facilitam sua disseminação. Além disso, as pessoas permanecem mais tempo em ambientes fechados, favorecendo a transmissão. Por isso, a vacina deve estar disponível o mais cedo possível, antecipando esse período de maior circulação viral.

Quais grupos correm maior risco de desenvolver complicações por causa da gripe e devem ter atenção especial à imunização?

Os grupos com maior risco de complicações pela gripe são idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas e outras comorbidades.

Existe uma falsa impressão de que gripe é uma doença simples. Quais complicações ela pode provocar, especialmente em idosos, crianças e pessoas com comorbidades?

Grande parte das doenças apresenta um espectro de gravidade, variando de casos leves a quadros muito graves, inclusive com risco de morte. Como a gripe atinge um número muito grande de pessoas, também gera muitos casos graves, principalmente entre os grupos mais vulneráveis. As principais complicações ocorrem no trato respiratório, como a pneumonia, além da descompensação e agravamento de doenças crônicas, podendo levar à internação e até ao óbito.

Algumas pessoas ainda têm receio de tomar mais de uma vacina ao longo do ano. É seguro receber vacinas contra diferentes doenças dentro do calendário recomendado?

Sim. É seguro e recomendado tomar diferentes vacinas ao longo do ano, conforme o calendário de vacinação.

Que mensagem o senhor deixaria para a população do Médio Piracicaba sobre a importância da vacinação como ferramenta de proteção individual e coletiva?

A vacinação vai além da proteção individual: ela é um gesto de cuidado com a própria vida e com a vida dos outros. Ao se vacinar, cada pessoa se protege e também ajuda a proteger familiares, amigos e toda a comunidade, especialmente aqueles mais vulneráveis. É uma atitude simples que salva vidas e fortalece a esperança de um futuro mais saudável para todos.

Fonte: A Notícia